Desde que eu era bem pequena, minha mãe dizia: "é melhor uma verdade que dói do que uma mentira que conforta". E cresci acreditando e valorizando isto.
Mentir é moralmente errado. E se isto torna-se um hábito pior ainda. Afinal, por que as pessoas mentem? Para não enfrentar as consequências de algo errado que fizeram. Para prejudicar alguém em favor próprio. Para evitar algum tipo de punição. Para garantir que os outros tenham uma boa opinião sobre elas ao invés de desejarem quebrar-lhes o nariz. Para criar a melhor versão possível delas mesmas.
Mas, façamos um parêntesis aqui. Nem todas as mentiras são totalmente prejudiciais. Na verdade, às vezes, mentir é somente uma alternativa para proteger a própria privacidade e a nós mesmos da maldade alheia. Em outros momentos, em nome da delicadeza, para evitar ferir os sentimentos de alguém, também mentimos. Mas em ambos os casos não há absolutamente a intenção de prejudicar ninguém.
Isso quer dizer que mentir não é completamente errado.
Como disse Bentinho, em Dom Casmurro , mentir as vezes se torna tão involuntário quanto transpirar.
Mentimos o tempo todo, até sem perceber. Mentimos sobre nossa altura, nosso peso, nossa idade. Mentimos para nós mesmos, para suportar um recalque. Mentimos para nossos pais, para tranquilizá-los, e para nossos filhos, para que não sofram. Mentimos para os amigos, para não lhes ferir a autoestima, e para o chefe, para justificar um atraso. Mentimos para o guarda, para não tomar uma multa. Atletas mentem para competir dopados, investigadores mentem para apanhar criminosos, políticos mentem... por vários motivos.
Há mentiras inofensivas; outras mudam a vida de pessoas de uma forma exagerada.
Quando alguma pessoa mente descaradamente, ou compulsivamente e, principalmente, quando sua atitude mentirosa causa frustrações ou aborrecimentos em outros que não “merecem” tais mentiras, há vontade de envolver a psiquiatria nessa questão.
Mas como na maioria das vezes, mentimos para nos favorecer, isso não merece ser diagnosticado.
Aprendemos desde cedo as vantagens da mentira. Ainda crianças aprendemos a dizer que a mãe não está em casa, quando ela quer evitar atender ao telefone. Cedo aprendemos os benefícios de um atestado médico forjado para poder faltar às aulas, e assim por diante. Ah! Não esquecendo das mentiras a que se obrigam os netos, quando os avós perguntam de quais avós gostam mais...
Desde crianças aprendemos a abstrair a realidade através de fantasias, fábulas. A própria literatura pode nos conduzir a um mundo apaixonante “de mentirinha”.
E o interessante é que o outro, igualmente mentiroso também mente, fingindo acreditar. Acaba virando uma troca de mentiras, inconscientemente.
Há uma tendência em classificar nossa mentirazinha cotidiana como sendo do tipo positiva, aquela que além de não prejudicar pode até ajudar pessoas.
Quase sempre a mentira toma consciência do poder em nossa vida.

No comments:
Post a Comment